Para um ano que vai, para um ano que vem
Em 2011, tive uma relação menos afetiva e mais racional com Araucária, cidade que moro há mais de vinte anos. A rotina de jornalismo impresso em Curitiba e Campina Grande do Sul, duas das cidades que escrevi neste ano, me levou a enxergar a minha cidade com uma veia mais generalizada e menos virulenta – por um lado, incapaz de ler a cidade diariamente, por outro, mais à margem das discussões vazias e dos contornos míopes.
A cidade está crescendo, o consumo está crescendo, seus problemas emergem. No primeiro dia em que dirigi na nova Archelau, permaneci no lado direito. Demorou quase um minuto para meu cérebro processar a diferença, agora que a avenida é de um sentido só, essa coisa de pertencer a uma cidade que se rearranja. (E ainda temos a incidência dos estacionamentos regulamentados.)
Sabemos todos que as mudanças não serão suficientes às demandas que o desenvolvimento pede. O trânsito seguirá com problemas, os motoristas seguirão ególatras, teremos imprudência, teremos acidentes e mortes.
O que as mudanças no trânsito dizem sobre Araucária e 2011? Estamos atravessando a época da inocência. A cidade bucólica e interiorana não existe mais – se é que um dia existiu.
Para o Jornalismo local, que acompanhei quase à espreita e acredito poder dizer algo porque vivo disso, foi mais do mesmo: jornalismo policial anódino e representativo da direita mais inescrupulosa possível, jornalismo a favor financiado pelo dinheiro público, jornalismo do contra quando interessa a um grupo que está fora do poder, jornalistas que não compreendem o seu potencial de mudar as invocações de seus patrões e sequer se propõe a fazer algo diferente.
Somos uma cidade nova que não lê suas mudanças, uma grande pousada desconhecida.
Em 2012, ano em que o curral eleitoral deve escurecer tudo, veremos diversos grupos em busca de poder, jornais de ocasião surgindo para defender interesses privados, os jornais de sempre enganando o leitor, embora fique a pergunta: quem aguenta ler os nossos jornais?
No formato atual – e isso não se restringe somente ao impresso – as mídias estão cada vez mais caras aos anunciantes, não formam mais público e perdem audiência sequencialmente.
Receio que pouco de diferente se ouvirá – nestes tempos em que o conservadorismo parece cada vez imponente.
E tenham certeza: veremos as velhas raposas jogando suas cartas. O que se diz novo é apenas embalagem.
Espero que grupos e vozes dissonantes se movimentem contra o discurso padrão. Espero que tenhamos mais espírito crítico e inconformismo, embora tenhamos que desconfiar de todos os críticos e inconformistas da região.
Para não perdermos o costume.
Texto por:
Daniel Zanella
Foto por:
Gregory Machado
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